A semente que dorme: Wagner Nacarato e o legado que segue em cena

Na manhã de ontem nos despedimos de Wagner Nacarato. Diretor teatral, ator, professor e gestor cultural, ele compreendia como ninguém o papel transformador da arte.

Em 2024, no palco do TEDxJundiaí 2024, sob o tema Olhares, Wagner nos convidou a enxergar a vida – e a nós mesmos – a partir da arte. Ao usar a jornada do herói (narrativa popularizada por Joseph Campbell) como moldura poética para recontar o próprio caminho, Wagner falou sobre luz.

Onde há foco, há também sombra; onde há sombra, há também movimento. Em 2020, pela primeira vez em 35 anos de docência no Colégio Divina Providência, aulas e ensaios com seus alunos precisaram parar por causa da pandemia. Para ele, foi mais do que uma interrupção de agenda: foi uma crise existencial, pois o teatro era, para si, pulso de vida.

O gramado da sua casa tornou-se, então, o primeiro gesto de recomeço: caminhar para não paralisar. Caminhar para elaborar. Caminhar para atravessar.

Em 2021, a dor no quadril o obrigou a parar. E ali veio sua virada narrativa: a descoberta da metástase do câncer que enfrentava desde 2009, quando, à época, os médicos lhe deram apenas dois anos de vida. “Mas consegui viver 15… os médicos já desistiram de mim”, contou com humor, sem perder a leveza.

Longe de fazer da doença o centro do palco, Wagner recorreu às artes para continuar sendo criador em outro formato: recortes, colagens de imagens e, sobretudo, literatura. Nesse recorte de lembranças, reencontrou o jovem Wagner, que partiu para sua própria jornada cheio de sonhos. Cabelos ruivos, inquietação e coragem de começar sem roteiro pronto, como ele mesmo descreve.

“Quando eu olhei para esse jovem, de 24, 25, ele dizia para mim: eu sonho! Eu tenho sonhos! Eu vou realizar coisas bonitas.”

Ele nos contou que o jovem de partida jamais imaginaria ser diretor do Teatro Polytheama e, um dia, compartilhar ideias e programar sonhos em forma de espetáculo, ocupando também aquele mesmo palco em que, no TEDx, falava da própria jornada – quase como um ciclo que se reencontra. O teatro como lugar de nascimento de pontos de vista; a cidade como lar expandido; e o retorno como gesto de partilha.

Ao final de sua fala, ele leu um trecho da canção Melhor de Mim, da artista Mariza (hino de esperança e busca por autoconhecimento, mesmo diante das dificuldades e das sombras do presente):

“Sei que o melhor de mim está por chegar.”

E quando falamos do melhor dele, falamos do que ficou: pessoas formadas por suas escolhas de espetáculos, textos e encontros… e plateias que aprenderam a reconhecer sua própria voz interior no intervalo da cena.

Este texto é um abraço em palavras, um registro de gratidão a quem fez do teatro um lugar de encontro e recomeço.

Rafael Testa & Tainan Franco

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